Japão,
pare de caçar as baleias,
o mar não gosta!
terça-feira, maio 03, 2011
segunda-feira, setembro 14, 2009
Enfim voltei!
Gentens, VOLTEI!!!
Ce pensava que eu fui embora, ói eu aqui traveis.
Depois de alguns anos sem acesso ao meu próprio blog, meto o pé na porta, derrubo... vocês vão ter que me engolir. Hoje não, que eu tô com preguiça, mas logo estarei postando novos textos.
Abraço
Eu
Ce pensava que eu fui embora, ói eu aqui traveis.
Depois de alguns anos sem acesso ao meu próprio blog, meto o pé na porta, derrubo... vocês vão ter que me engolir. Hoje não, que eu tô com preguiça, mas logo estarei postando novos textos.
Abraço
Eu
terça-feira, março 13, 2007
Minhas peripécias no Cine Marajá
Entre 1968 e 72, eu era um jovem projecionista do Cine Marajá, no município de Franco da Rocha, SP. Solitário na cabina de projeção, cometi erros e aprontei algumas poucas e boas com resultados hilários. Para minha sorte, o dono do cinema, o tcheco-eslovaco Jorge Truksa, biotipo alemão, baixo e troncudo, já falecido, só tomou conhecimento dos fatos quando relatei os ocorridos em matéria que publiquei no jornal Juca Post anos atrás, quando o cinema fechou para dar espaço para uma nova igreja evangélica. Hoje o cinema funciona sob nova direção.
Uma vez dormi durante a projeção. Para quem não sabe, os filmes vinham em quatro, geralmente cinco rolos enlatados com cerca de 20 a 25 minutos de duração cada. Eu já havia visto o mesmo filme tantas vezes que cochilei quando a última parte estava quase no fim. Trancado na cabina, estirei-me em uma poltrona e ronquei. O arco voltaico (que lança a luz do filme à tela) apagou-se, a imagem na tela sumiu, mas o som continuou.
Era um dia de semana e havia uns poucos gatos pingados vendo o filme. Eles levantaram-se reclamando e foram embora porque sabiam que era o final. Jorge Truksa não estava. O único funcionário que estava lá, subiu correndo uma escada externa da cabine de projeção e bateu forte na porta trancada. Eu não ouvi; o barulho do projetor era alto. O funcionário espiou pelo buraco da fechadura e só viu minhas pernas estendidas, inertes. “Morreu!", pensou ele. Deu a volta correndo e abriu a porta do balcão que dava para a cabina acordando-me. Levantei-me num pulo até tomar consciência do que havia acontecido. O povo já tinha ido embora. “Não conte para o seu Jorge, pelo amor de Deus!", implorei eu ao rapaz. E ficou por isso mesmo.
Jorge Truksa morava em um sobrado ao lado do cinema. Eram muitos os gatos que viviam no seu quintal. Diante da tela do cinema, havia um palco com piso de assoalho limitado por uma pequena mureta diante das poltronas do cinema. Abaixo da tela havia a tubulação do ventilador, de uns sessenta centímetros de diâmetro com uma grade vertical de madeira. A tubulação ia dar no quintal do dono do cinema, onde ficava o motor com a hélice do grande ventilador. Eu via o filme pela “janelinha” da cabina quando vi um gato refletindo-se no brilho da tela no assoalho do palco. O bichano parou, olhou a movimentação da cena da tela e entrou calmamente no tubo do ventilador, que estava desligado. Corri para a chave e liguei a máquina, sabendo que a hélice estava longe, na outra ponta do tubo, e não iria ferir o gato. Voltei correndo para a “janelinha” para ver o resultado. Foi divertido: o gato, apavorado, saiu em disparada do ventilador, escorregou pelo piso encerado do palco, bateu na mureta e caiu no meio da platéia. Foi gente pulando e gritando pra todo lado naquele setor, na “fila do gargarejo”. Morrendo de rir, eu desliguei o ventilador impunemente.
Jorge abriu um cinema da cidade de Jarinu e faturou com uma idéia que aparece no filme Cinema Paradiso. A tática era a seguinte: ele alugava um filme para exibir em um cinema e exibia em dois, sem pagar mais por isso. O filme passava, digamos, na matinê (sessão da tarde) de domingo em Franco da Rocha e à noite em Jarinu. Aconteceu que eu estava treinando o projecionista de Jarinu. Lá não tinha matinê no começo, só a exibição da noite. Como eu trabalhava em Franco da Rocha e só ia pra Jarinu nas sextas, sábados e domingos à noite, logo arrumei uma namoradinha por lá, Ana Silvia, uma moreninha muito bonita. E, por causa dela, eu nunca ensinava tudo pro Chico, o trainee de lá, só para continuar indo mais vezes para a cidade. O dono do cinema reclamava e eu apelava: “Pô, Jorge, o cara é muito burro! Aprende devagar demais!” Coitado do Chico. Era alto, jeitão caipira e estrábico.
Aí aconteceu a merda. Eu passei um filme na matinê de Franco da Rocha, um outro projecionista assumiu a sessão noturna em Franco e nós partimos para Jarinu levando o filme na Kombi do Jorge. Aconteceu que eu, na minha ânsia de ver a namorada, esqueci a última parte do filme em Franco da Rocha. O cinema de Jarinu quase lotou. Deixei o Chico na projeção e sentei-me com a moça no escuro da platéia. Tudo ia bem até que o filme parou, as luzes acenderam e o Chico desceu como um louco para dentro do cinema, me procurando. Eu me levantei e ele gritou para que todos ouvissem: “Alcir, cadê a última parte do filme?” Eu gelei. Todos os olhos estavam voltados para mim. Viramos a Kombi de cabeça pra baixo, e nada! Vermelho como um pimentão, o velho Truksa postou-se diante da platéia, e explicou o problema: “a última parte do filme não estava disponível, que todos o desculpassem, que não havia nada a fazer, que isso não iria mais acontecer etc., etc.” O tcheco-eslovaco só não me matou por pouco. É mole?
Uma vez eu via o filme pela janelinha quando o cinema inteiro caiu na gargalhada. Não entendi: a cena na tela não tinha nada de engraçado. Os risos durante minutos. Só depois é que um funcionário me contou o ocorrido. O cinema tinha o salão principal e um balcão no alto, ao lado da cabina de projeção. O cinema estava em silêncio, todos atentos ao que se passava na tela, quando uma voz feminina veio do balcão, dizendo em alto e bom tom: “Tira a mão de mim, velho safado!”, seguido do ruído de tapas. Gargalhada geral na platéia.
Uma vez dormi durante a projeção. Para quem não sabe, os filmes vinham em quatro, geralmente cinco rolos enlatados com cerca de 20 a 25 minutos de duração cada. Eu já havia visto o mesmo filme tantas vezes que cochilei quando a última parte estava quase no fim. Trancado na cabina, estirei-me em uma poltrona e ronquei. O arco voltaico (que lança a luz do filme à tela) apagou-se, a imagem na tela sumiu, mas o som continuou.
Era um dia de semana e havia uns poucos gatos pingados vendo o filme. Eles levantaram-se reclamando e foram embora porque sabiam que era o final. Jorge Truksa não estava. O único funcionário que estava lá, subiu correndo uma escada externa da cabine de projeção e bateu forte na porta trancada. Eu não ouvi; o barulho do projetor era alto. O funcionário espiou pelo buraco da fechadura e só viu minhas pernas estendidas, inertes. “Morreu!", pensou ele. Deu a volta correndo e abriu a porta do balcão que dava para a cabina acordando-me. Levantei-me num pulo até tomar consciência do que havia acontecido. O povo já tinha ido embora. “Não conte para o seu Jorge, pelo amor de Deus!", implorei eu ao rapaz. E ficou por isso mesmo.
Jorge Truksa morava em um sobrado ao lado do cinema. Eram muitos os gatos que viviam no seu quintal. Diante da tela do cinema, havia um palco com piso de assoalho limitado por uma pequena mureta diante das poltronas do cinema. Abaixo da tela havia a tubulação do ventilador, de uns sessenta centímetros de diâmetro com uma grade vertical de madeira. A tubulação ia dar no quintal do dono do cinema, onde ficava o motor com a hélice do grande ventilador. Eu via o filme pela “janelinha” da cabina quando vi um gato refletindo-se no brilho da tela no assoalho do palco. O bichano parou, olhou a movimentação da cena da tela e entrou calmamente no tubo do ventilador, que estava desligado. Corri para a chave e liguei a máquina, sabendo que a hélice estava longe, na outra ponta do tubo, e não iria ferir o gato. Voltei correndo para a “janelinha” para ver o resultado. Foi divertido: o gato, apavorado, saiu em disparada do ventilador, escorregou pelo piso encerado do palco, bateu na mureta e caiu no meio da platéia. Foi gente pulando e gritando pra todo lado naquele setor, na “fila do gargarejo”. Morrendo de rir, eu desliguei o ventilador impunemente.
Jorge abriu um cinema da cidade de Jarinu e faturou com uma idéia que aparece no filme Cinema Paradiso. A tática era a seguinte: ele alugava um filme para exibir em um cinema e exibia em dois, sem pagar mais por isso. O filme passava, digamos, na matinê (sessão da tarde) de domingo em Franco da Rocha e à noite em Jarinu. Aconteceu que eu estava treinando o projecionista de Jarinu. Lá não tinha matinê no começo, só a exibição da noite. Como eu trabalhava em Franco da Rocha e só ia pra Jarinu nas sextas, sábados e domingos à noite, logo arrumei uma namoradinha por lá, Ana Silvia, uma moreninha muito bonita. E, por causa dela, eu nunca ensinava tudo pro Chico, o trainee de lá, só para continuar indo mais vezes para a cidade. O dono do cinema reclamava e eu apelava: “Pô, Jorge, o cara é muito burro! Aprende devagar demais!” Coitado do Chico. Era alto, jeitão caipira e estrábico.
Aí aconteceu a merda. Eu passei um filme na matinê de Franco da Rocha, um outro projecionista assumiu a sessão noturna em Franco e nós partimos para Jarinu levando o filme na Kombi do Jorge. Aconteceu que eu, na minha ânsia de ver a namorada, esqueci a última parte do filme em Franco da Rocha. O cinema de Jarinu quase lotou. Deixei o Chico na projeção e sentei-me com a moça no escuro da platéia. Tudo ia bem até que o filme parou, as luzes acenderam e o Chico desceu como um louco para dentro do cinema, me procurando. Eu me levantei e ele gritou para que todos ouvissem: “Alcir, cadê a última parte do filme?” Eu gelei. Todos os olhos estavam voltados para mim. Viramos a Kombi de cabeça pra baixo, e nada! Vermelho como um pimentão, o velho Truksa postou-se diante da platéia, e explicou o problema: “a última parte do filme não estava disponível, que todos o desculpassem, que não havia nada a fazer, que isso não iria mais acontecer etc., etc.” O tcheco-eslovaco só não me matou por pouco. É mole?
Uma vez eu via o filme pela janelinha quando o cinema inteiro caiu na gargalhada. Não entendi: a cena na tela não tinha nada de engraçado. Os risos durante minutos. Só depois é que um funcionário me contou o ocorrido. O cinema tinha o salão principal e um balcão no alto, ao lado da cabina de projeção. O cinema estava em silêncio, todos atentos ao que se passava na tela, quando uma voz feminina veio do balcão, dizendo em alto e bom tom: “Tira a mão de mim, velho safado!”, seguido do ruído de tapas. Gargalhada geral na platéia.
terça-feira, novembro 28, 2006
Carnaval do Clube Juventus em 71: uma quase-tragédia
Carnaval do Clube Juventus em 71: uma quase-tragédia
Vivi intensamente os anos 70. Por isso me sinto meio velho hoje. Foi nessa década que se deu minha formação político-cultural. Sob a mão pesada do regime militar, a gente respirava arte e cultura. Em 74, eu e meus amigos acampávamos muito. Com nossas músicas, participamos de Festival Amador de Música Popular na cidade. Em Franco da Rocha havia o Centro Comunitário, onde havia o Tececo, grupo local de teatro que montara a peça O Homem do Princípio ao Fim, de Millôr Fernandes. A gente curtia o local.
Estudávamos no Befama (resumo de Benedito Fagundes Marques, o colégio). O agito era a rua Jundiaí, com sua escadaria, a juventude sentada lá, paquerando. A bebida era cuba libre. Meus amigos, muitos. Os mais próximos, Pedro Quintanilha e Mário Ramos, moravam no meu bairro. Os dois desenhavam e pintavam bem. Mário tocava violão. Começamos, ou melhor, eles começaram a fazer umas máscaras com jeito indígena montadas sobre cascas de coqueiro. Aprendi e tentei fazer também. Foram tentar vender em São Paulo. Era 1971. Um sujeito gostou, conversou com eles e sugeriu que poderiam fazer a decoração de carnaval do salão do Juventus, na Moóca, ganhando um bom dinheiro.
Reunimo-nos e fomos conhecer o salão do clube e nos inscrever para apresentar um projeto. Eles desenharam um croqui do salão e parte externa útil, com medidas aproximadas... Dos três, só eu era maior de idade. Varamos noite, eles desenhando, eu sugerindo e dando idéias. Compomos um projeto intitulado “São Paulo de Luanda”, com temática afro. Na parte externa haveriam algumas cabanas de madeira coberta com sapé e grandes estandartes coloridos. Na parte interna, painés estilizados de guerreiros e temas afros etc. Colocamos um preço um pouco abaixo do limite proposto pelo Juventus.
Havia mais uns cinco projetos concorrentes. A diretoria do clube eliminou alguns e sobraram o nosso e mais dois. Em seguida nos informaram que só permaneciam concorrendo o nosso projeto e um outro, de um japonês. Aí caiu a ficha para mim: o trabalho seria complicado, exigiria mão-de-obra para serrar, recortar, desenhar, pintar, instalar etc. E nós nada tínhamos a não ser as idéias e a boa vontade... de ganhar muito dinheiro.
Pensei comigo: se formos escolhidos, quem terá de assinar o contrato serei eu, o único maior de idade. E o prazo para entregar o salão decorado era um tanto curto. E ficamos com medo de algum maluco botar fogo nas cabanas. E outros medos vieram... E eu amarelei: “não temos estrutura nem experiência, vamos desistir! Nós não conseguiremos montar a coisa a tempo. Imaginem, argumentei eu, a gente pagando o mico de acabar com o carnaval do clube Juventus! Vai ser uma tragédia! Eles matam a gente!”
Desistimos. E deixamos o tal de japonês faturar a grana. Hoje Pedro Quintanilha é um artista plástico de primeira linha na região. E Mário Ramos é enfermeiro de plataforma de petróleo da Petrobrás na Bacia de Campos,Rio de Janeiro. E piloto comercial de avião... e instrutor de vôo do aeroclube de Jundiaí. Enquanto isso, eu...
Vivi intensamente os anos 70. Por isso me sinto meio velho hoje. Foi nessa década que se deu minha formação político-cultural. Sob a mão pesada do regime militar, a gente respirava arte e cultura. Em 74, eu e meus amigos acampávamos muito. Com nossas músicas, participamos de Festival Amador de Música Popular na cidade. Em Franco da Rocha havia o Centro Comunitário, onde havia o Tececo, grupo local de teatro que montara a peça O Homem do Princípio ao Fim, de Millôr Fernandes. A gente curtia o local.
Estudávamos no Befama (resumo de Benedito Fagundes Marques, o colégio). O agito era a rua Jundiaí, com sua escadaria, a juventude sentada lá, paquerando. A bebida era cuba libre. Meus amigos, muitos. Os mais próximos, Pedro Quintanilha e Mário Ramos, moravam no meu bairro. Os dois desenhavam e pintavam bem. Mário tocava violão. Começamos, ou melhor, eles começaram a fazer umas máscaras com jeito indígena montadas sobre cascas de coqueiro. Aprendi e tentei fazer também. Foram tentar vender em São Paulo. Era 1971. Um sujeito gostou, conversou com eles e sugeriu que poderiam fazer a decoração de carnaval do salão do Juventus, na Moóca, ganhando um bom dinheiro.
Reunimo-nos e fomos conhecer o salão do clube e nos inscrever para apresentar um projeto. Eles desenharam um croqui do salão e parte externa útil, com medidas aproximadas... Dos três, só eu era maior de idade. Varamos noite, eles desenhando, eu sugerindo e dando idéias. Compomos um projeto intitulado “São Paulo de Luanda”, com temática afro. Na parte externa haveriam algumas cabanas de madeira coberta com sapé e grandes estandartes coloridos. Na parte interna, painés estilizados de guerreiros e temas afros etc. Colocamos um preço um pouco abaixo do limite proposto pelo Juventus.
Havia mais uns cinco projetos concorrentes. A diretoria do clube eliminou alguns e sobraram o nosso e mais dois. Em seguida nos informaram que só permaneciam concorrendo o nosso projeto e um outro, de um japonês. Aí caiu a ficha para mim: o trabalho seria complicado, exigiria mão-de-obra para serrar, recortar, desenhar, pintar, instalar etc. E nós nada tínhamos a não ser as idéias e a boa vontade... de ganhar muito dinheiro.
Pensei comigo: se formos escolhidos, quem terá de assinar o contrato serei eu, o único maior de idade. E o prazo para entregar o salão decorado era um tanto curto. E ficamos com medo de algum maluco botar fogo nas cabanas. E outros medos vieram... E eu amarelei: “não temos estrutura nem experiência, vamos desistir! Nós não conseguiremos montar a coisa a tempo. Imaginem, argumentei eu, a gente pagando o mico de acabar com o carnaval do clube Juventus! Vai ser uma tragédia! Eles matam a gente!”
Desistimos. E deixamos o tal de japonês faturar a grana. Hoje Pedro Quintanilha é um artista plástico de primeira linha na região. E Mário Ramos é enfermeiro de plataforma de petróleo da Petrobrás na Bacia de Campos,Rio de Janeiro. E piloto comercial de avião... e instrutor de vôo do aeroclube de Jundiaí. Enquanto isso, eu...
sexta-feira, novembro 24, 2006
Meus correspondentes estrangeiros
No início dos anos 80, sedento por leituras, tive acesso à revista "Cadernos do Terceiro Mundo", uma publicação de esquerda editada em vários países. Ali, na seção de cartas, peguei alguns endereços de estrangeiros e mandei correspondência. Nem imaginava em que cumbuca estava metendo a mão. Em algum tempo, já tinha correspondentes espalhados por vários países de língua portuguesa ou espanhola, além de outros, desde que se comunicassem nesses idiomas. Lembro-me de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau na África, Chile, Equador, Costa Rica, Porto Rico, Argentina e Perú nas Américas, mais Japão e Itália. Só respondia a cartas interessantes, não mais.
E contatei figuras ímpares. No Peru, por exemplo, mantive contato por anos com Júlio César Pantigoso Barreto, camarada de ultra-esquerda que começava e terminava seus manuscritos com vivas “à Revolução”, “à Liberdade dos Povos Latino-Americanos”, “ao Maoísmo”... Logo percebi: Júlio César, que me escrevia com endereço falso (já que eu possuía o verdadeiro) era integrante do Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro de extrema-esquerda, liderado por Abimael Gúzman, hoje preso. Ele me colocou em contato com a jornalista norte-coreana Ri Mi Sun, que vivia num endereço que, se não me falha a memória, era mais ou menos assim: Shinjuku-ku, Hachiman Cho, Tókio, Japão (não estou seguro da grafia, mas a sonoridade é essa).
Ri Mi Sun falava coreano, japonês, inglês e espanhol. Por sua vez, ela me pôs em contato com o jornal Korea Popular, editado em espanhol, e mandou-me de presente de aniversário (após certificar-se de que eu era fumante), cigarros de vários países, postais lindíssimos da Coréia comunista e um isqueiro em forma de caneta banhado a ouro.
O peruano Júlio César me fez saber que havia um grupo de várias nacionalidades que formava uma corrente de correspondência espalhado pelo mundo. E inseriu-me nele. Todos tinham pensamentos de esquerda. Se um se calava, havia uma série de contatos preocupados para saber se alguém tivera contato com "sumido".
Da África vinham cartas com pedidos inusitados. Um angolano mandou-me uma carta nos seguintes termos: Caro amigo, minha casa foi bombardeada pelos boers (militares brancos descendentes de holandeses, da racista África do Sul) e perdi tudo. Peço sua ajuda. Mande-me, por favor dois pares de sapatos número 44, duas calças tamanho grande, duas camisas, um saco de arroz, outro de açúcar...
É mole? Moças pediam sandálias Melissa, mas que eu mandasse um pé antes e outro depois, senão roubavam nos correios de lá. E homens pediam fotos de brasileiras de fio dental na praia, revistas pornográficas e por aí em diante. Um angolano pediu um cartão postal da cidade de Gramado (RS) com neve! E outro disse gostar de informar-se sobre índios brasileiros. E citou as tribos Cheyennes, Comanches, Syoux...
A Costa Rica era o país onde eu mais tinha correspondentes. Comecei mandando cartas aos jornais La Nación e La Republica, pedindo contatos. Semanas depois o carteiro me entregou um pacote com mais de 150 cartas e disse: divirta-se! Tinha de tudo, principalmente crianças e adolescentes. Havia correntes de oração, uma cantora de bolero, a filha de um escritor, e evangélicos. De lá, um sujeito mandou-me uma foto sua na selva com guerrilheiros e camponeses, diante de uma bandeira vermelha e preta com a inscrição: FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional, Nicarágua).
Vieram da África algumas cartas em idioma que não consegui identificar. Não era inglês, francês, alemão, italiano... Fiquei sem saber. Na época eu sabia um pouco de espanhol, o suficiente para me corresponder sem passar grandes vergonhas. Essas pessoas me encheram de moedas de seus países, notas em papel, postais, selos e pequenos presentes. Com essas correspondências, aprendi na época que a moeda de Angola era o kwanza, de Moçambique era o metical e de algum país africano, o butut, da Zâmbia, eu acho.
Um dia me enchi e parei de responder às cartas, justo na época em que começavam a chegar cartas de Cuba...
E contatei figuras ímpares. No Peru, por exemplo, mantive contato por anos com Júlio César Pantigoso Barreto, camarada de ultra-esquerda que começava e terminava seus manuscritos com vivas “à Revolução”, “à Liberdade dos Povos Latino-Americanos”, “ao Maoísmo”... Logo percebi: Júlio César, que me escrevia com endereço falso (já que eu possuía o verdadeiro) era integrante do Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro de extrema-esquerda, liderado por Abimael Gúzman, hoje preso. Ele me colocou em contato com a jornalista norte-coreana Ri Mi Sun, que vivia num endereço que, se não me falha a memória, era mais ou menos assim: Shinjuku-ku, Hachiman Cho, Tókio, Japão (não estou seguro da grafia, mas a sonoridade é essa).
Ri Mi Sun falava coreano, japonês, inglês e espanhol. Por sua vez, ela me pôs em contato com o jornal Korea Popular, editado em espanhol, e mandou-me de presente de aniversário (após certificar-se de que eu era fumante), cigarros de vários países, postais lindíssimos da Coréia comunista e um isqueiro em forma de caneta banhado a ouro.
O peruano Júlio César me fez saber que havia um grupo de várias nacionalidades que formava uma corrente de correspondência espalhado pelo mundo. E inseriu-me nele. Todos tinham pensamentos de esquerda. Se um se calava, havia uma série de contatos preocupados para saber se alguém tivera contato com "sumido".
Da África vinham cartas com pedidos inusitados. Um angolano mandou-me uma carta nos seguintes termos: Caro amigo, minha casa foi bombardeada pelos boers (militares brancos descendentes de holandeses, da racista África do Sul) e perdi tudo. Peço sua ajuda. Mande-me, por favor dois pares de sapatos número 44, duas calças tamanho grande, duas camisas, um saco de arroz, outro de açúcar...
É mole? Moças pediam sandálias Melissa, mas que eu mandasse um pé antes e outro depois, senão roubavam nos correios de lá. E homens pediam fotos de brasileiras de fio dental na praia, revistas pornográficas e por aí em diante. Um angolano pediu um cartão postal da cidade de Gramado (RS) com neve! E outro disse gostar de informar-se sobre índios brasileiros. E citou as tribos Cheyennes, Comanches, Syoux...
A Costa Rica era o país onde eu mais tinha correspondentes. Comecei mandando cartas aos jornais La Nación e La Republica, pedindo contatos. Semanas depois o carteiro me entregou um pacote com mais de 150 cartas e disse: divirta-se! Tinha de tudo, principalmente crianças e adolescentes. Havia correntes de oração, uma cantora de bolero, a filha de um escritor, e evangélicos. De lá, um sujeito mandou-me uma foto sua na selva com guerrilheiros e camponeses, diante de uma bandeira vermelha e preta com a inscrição: FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional, Nicarágua).
Vieram da África algumas cartas em idioma que não consegui identificar. Não era inglês, francês, alemão, italiano... Fiquei sem saber. Na época eu sabia um pouco de espanhol, o suficiente para me corresponder sem passar grandes vergonhas. Essas pessoas me encheram de moedas de seus países, notas em papel, postais, selos e pequenos presentes. Com essas correspondências, aprendi na época que a moeda de Angola era o kwanza, de Moçambique era o metical e de algum país africano, o butut, da Zâmbia, eu acho.
Um dia me enchi e parei de responder às cartas, justo na época em que começavam a chegar cartas de Cuba...
terça-feira, novembro 07, 2006
A evolução das espécies...


O cabeçudinho aí do lado, da foto em preto e branco, sou eu, eu mesmo, Alcir Rodrigues de Oliveira. Ou era eu, pelo menos no século passado. Neste novo milênio, depois de intenso esforço evolutivo, meus agradecimentos a Charles Darwin, que me fez compreender. Afinal, aquilo deu nisso, esse bichim bunitim... Eitcha!!!
Meus haicais
A arte do Haicai, ou hai-cai, como preferem alguns, é muito bacana. Escrever sumariamente, deixando a mensagem forte na última frase, o “ferrão do escorpião”, parece fácil. Me aventurei algumas vezes a tentar. Deu nisso:
Pegue a trilha
vá embora
mas, favor,
leva sua trilha sonora.
De bar em bar,
um balcão
onde escorar
o meu azar.
Com sangue,
tudo se expande
a guerra, a morte,
a glande.
Calei “nãos”
ganhei viço
serei eu só isso?
O dia em que nasci
foi assim
apressado
nasceu antes de mim.
Pegue a trilha
vá embora
mas, favor,
leva sua trilha sonora.
De bar em bar,
um balcão
onde escorar
o meu azar.
Com sangue,
tudo se expande
a guerra, a morte,
a glande.
Calei “nãos”
ganhei viço
serei eu só isso?
O dia em que nasci
foi assim
apressado
nasceu antes de mim.
segunda-feira, novembro 06, 2006
A mídia, a mitologia e eu
Sou jornalista há muitos anos e até hoje as pessoas, principalmente os colegas, pasmam quando digo que não vejo TV nem ouço rádio. Não tenho mesmo a cultura do ouvinte de rádio. Diante da TV, a minha paciência acaba em minutos. Posso até ver um bom filme, um noticiário ou futebol, mas não tenho o menor interesse pela TV pois qualquer coisa, qualquer outro programa, ou um pouquinho de sono, e eu já abandono a telinha. Adoro jornal impresso, sou viciado nessa leitura. Antes eu ouvia rádio raríssimamente (Rádio USP ou Mix, não mais) quando lavava o carro aos sábados, ou dirigindo, o que fazia muito pouco.
E aí me perguntam os incrédulos:
- Então, o que você faz então com seu tempo livre???
Respondo com dose cavalar de ironia:
- Oras, como sou fã da mitologia greco-romana, costumo prestar minhas oblações a Baco, Eros e Morfeu, nessa ordem.
E aí me perguntam os incrédulos:
- Então, o que você faz então com seu tempo livre???
Respondo com dose cavalar de ironia:
- Oras, como sou fã da mitologia greco-romana, costumo prestar minhas oblações a Baco, Eros e Morfeu, nessa ordem.
quarta-feira, novembro 01, 2006
segunda-feira, outubro 30, 2006
VERÍDICA - Velhinha chata, sô!
Bar, no Brasil, é uma instituição a ser preservada. É ali que se ouvem (ou acontecem) as histórias mais saborosas, ou onde se encaminham tristes destinos. Sabadão qualquer, eu e um grande amigo estávamos em torno da cervejinha sentados num balcão de padaria, daquelas bem encardidas (como a maioria dos seus frequentadores), levando bom papo (um jogando cisco no ouvido do outro), quando chega uma senhora com uma foto de uma criança:
- Meu sobrinho está muito doente, preciso comprar remédios. Podem ajudar?
Interrompida a conversa, o colega deu um real. Eu não dei nada, duvidando que a mulher sequer conhecesse a criança. Mal retomamos a conversa e a velha interrompe novamente.
- Posso tomar um copo de cerveja? Tô com uma vontade...
Nos entreolhamos e demos a bebida para a mulher. Mas ela não deu trégua.
- Vocês moram aqui na cidade?
Respondi com monossílabo. Ela contra atacou, marcando corpo a corpo.
- Vocês são casados?
Aí foi demais e eu não perdi a deixa.
- Não, não, é só amizade...
Percebendo o duplo sentido do insólito diálogo, o colega não aguentou e explodiu na gargalhada. Aí sim, a mulher desistiu e se afastou devidamente melindrada.
- Meu sobrinho está muito doente, preciso comprar remédios. Podem ajudar?
Interrompida a conversa, o colega deu um real. Eu não dei nada, duvidando que a mulher sequer conhecesse a criança. Mal retomamos a conversa e a velha interrompe novamente.
- Posso tomar um copo de cerveja? Tô com uma vontade...
Nos entreolhamos e demos a bebida para a mulher. Mas ela não deu trégua.
- Vocês moram aqui na cidade?
Respondi com monossílabo. Ela contra atacou, marcando corpo a corpo.
- Vocês são casados?
Aí foi demais e eu não perdi a deixa.
- Não, não, é só amizade...
Percebendo o duplo sentido do insólito diálogo, o colega não aguentou e explodiu na gargalhada. Aí sim, a mulher desistiu e se afastou devidamente melindrada.
VERÍDICA - Não me defenda. Você, não!
Certa feita eu estava em uma casa noturna em Franco da Rocha quando chegou um amigo gay com uma amiga comum. Sentaram-se e ficamos batendo papo. Em outra mesa, estavam uma moça que eu conhecia e um rapaz muito, muito forte. Ela me cumprimentou de longe e eu acenei pra ela. O fortão me olhou com uma cara muito, muito feia. Desviei o olhar e comentei com o colega de mesa.
- Nossa!, o cara não gostou de eu ter cumprimentado a companheira dele. Se ele me dá um soco, arranca minha cabeça.
Em minha defesa, meu amigo gay comentou decidido:
- Deixa ele vir aqui pra ver só. Dou-lhe uma cadeirada na cabeça... tá pensando o quê.
Olhei pro interlocutor por uns segundos e decretei:
- Nunca! Deixa quieto. Se ele vier, deixa eu apanhar em paz porque, se você me defende, com que cara eu saio na rua amanhã? Vou ter que mudar da cidade...
Gargalhadas gerais.
- Nossa!, o cara não gostou de eu ter cumprimentado a companheira dele. Se ele me dá um soco, arranca minha cabeça.
Em minha defesa, meu amigo gay comentou decidido:
- Deixa ele vir aqui pra ver só. Dou-lhe uma cadeirada na cabeça... tá pensando o quê.
Olhei pro interlocutor por uns segundos e decretei:
- Nunca! Deixa quieto. Se ele vier, deixa eu apanhar em paz porque, se você me defende, com que cara eu saio na rua amanhã? Vou ter que mudar da cidade...
Gargalhadas gerais.
sexta-feira, outubro 27, 2006
Uma notícia preocupante...
Antes de fazer jus ao título acima: em dezembro de 95 publiquei meu primeiro livro, Treze Infernos, Textos poéticos, contos e crônicas. Há mais ou menos cinco anos, venho escrevendo um segundo livro, tendo Seara Encantada como título provisório. Estou parado na fase de revisão final, que é ora de cortar, cortar, cortar. E comecei recentemente a trabalhar num terceiro livro que trata do resgate da História do jornal O Franco, lançado em dezembro de 78. Espero terminá-lo no ano que vem e creio que o terceiro livro será lançado antes do segundo. Pode?
Mas vamos ao que interessa: estou com meu segundo livro parado. A história gira em torno da urgência do planeta em relação às agressões sofridas. E o risco de alterações climáticas extremas como tsunamis, grandes secas, degelo dos pólos, frequência cada vez maior de furacões etc.
Aí, vejo no jornal Folha de S. Paulo de 25/10 a notícia, alarmante, que segue reproduzida abaixo. E fico com a impressão de que a casa vai cair e as pessoas não estão ligando. E me animo a retomar o meu livro, que é mais um alerta, embora divertido.
Alcir de Oliveira
NOTÍCIA PUBLICADA NA FOLHA DE S. PAULO DE 25-10-2006
Humanidade já excede capacidade da Terra
Da Redação
Os seres humanos já usam recursos naturais a uma taxa 25% maior que a capacidade do planeta de regenerá-los. Se a tendência continuar, afirma um relatório divulgado ontem, em 2050 a humanidade precisará de duas Terras para prover suas necessidades.
O documento, chamado Living Planet Report, é lançado todo ano pela Ong WWF. Ele se baseia em dois indicadores: o chamado índice planeta vivo, que mede as tendências da biodiversidade na Terra, e a pegada ecológica, que calcula fatores como a biocapacidade (área produtiva de pasto, lavoura e florestas necessária à satisfação das necessidades humanas) e a capacidade dos oceanos de diluir a poluição humana.
O relatório de 2006, que captura essas tendências globais até 2003, indica que a humanidade superou a capacidade regenerativa do planeta por volta de 1980. O índice planeta vivo caiu 30% entre 1970 e 2003, o que indica que as extinções estão se acelerando.
“A humanidade não está mais vivendo dos juros da natureza, mas esgotando seu capital”, afirma o relatório. “A esse nível de déficit ecológico, a exaustão dos ativos ecológicos e o colapso em grande escala dos ecossistemas parece cada vez mais provável.”
Esse déficit não é igual para todos os seres humanos. A maioria dos países desenvolvidos “deve” mais ao planeta por ter uma pegada ecológica maior. Os EUA são o maior exemplo. Cada cidadão americano demanda 9,6 hectares para atender a seus padrões de consumo, mas a biocapacidade dos Estados Unidos é de apenas 4,7 hectares por pessoa – um déficit ecológico de 4,8 hectares por pessoa.
Já o Brasil, pelo menos nesse quesito, é (ainda) um credor: cada brasileiro usa 2,1 hectares, tendo o país uma biocapacidade de 9,9 hectares por pessoa.
Mas vamos ao que interessa: estou com meu segundo livro parado. A história gira em torno da urgência do planeta em relação às agressões sofridas. E o risco de alterações climáticas extremas como tsunamis, grandes secas, degelo dos pólos, frequência cada vez maior de furacões etc.
Aí, vejo no jornal Folha de S. Paulo de 25/10 a notícia, alarmante, que segue reproduzida abaixo. E fico com a impressão de que a casa vai cair e as pessoas não estão ligando. E me animo a retomar o meu livro, que é mais um alerta, embora divertido.
Alcir de Oliveira
NOTÍCIA PUBLICADA NA FOLHA DE S. PAULO DE 25-10-2006
Humanidade já excede capacidade da Terra
Da Redação
Os seres humanos já usam recursos naturais a uma taxa 25% maior que a capacidade do planeta de regenerá-los. Se a tendência continuar, afirma um relatório divulgado ontem, em 2050 a humanidade precisará de duas Terras para prover suas necessidades.
O documento, chamado Living Planet Report, é lançado todo ano pela Ong WWF. Ele se baseia em dois indicadores: o chamado índice planeta vivo, que mede as tendências da biodiversidade na Terra, e a pegada ecológica, que calcula fatores como a biocapacidade (área produtiva de pasto, lavoura e florestas necessária à satisfação das necessidades humanas) e a capacidade dos oceanos de diluir a poluição humana.
O relatório de 2006, que captura essas tendências globais até 2003, indica que a humanidade superou a capacidade regenerativa do planeta por volta de 1980. O índice planeta vivo caiu 30% entre 1970 e 2003, o que indica que as extinções estão se acelerando.
“A humanidade não está mais vivendo dos juros da natureza, mas esgotando seu capital”, afirma o relatório. “A esse nível de déficit ecológico, a exaustão dos ativos ecológicos e o colapso em grande escala dos ecossistemas parece cada vez mais provável.”
Esse déficit não é igual para todos os seres humanos. A maioria dos países desenvolvidos “deve” mais ao planeta por ter uma pegada ecológica maior. Os EUA são o maior exemplo. Cada cidadão americano demanda 9,6 hectares para atender a seus padrões de consumo, mas a biocapacidade dos Estados Unidos é de apenas 4,7 hectares por pessoa – um déficit ecológico de 4,8 hectares por pessoa.
Já o Brasil, pelo menos nesse quesito, é (ainda) um credor: cada brasileiro usa 2,1 hectares, tendo o país uma biocapacidade de 9,9 hectares por pessoa.
Eu não resisto!
Não vejo graça no alcoolismo, Deus me livre! Mas leio jornal em bar, sempre no mesmo bar. Antes, eram livros. Uns dizem que jornal é meu álibi para a cerveja, ou que leio sempre o mesmo jornal todo dia e que, por isso, não deixo verem a data pra não descobrirem. Dizem também que só troco de jornal quando as páginas amarelam. Outros falam que a cerveja é álibi para o jornal. Que, sem a “ breja”, eu não saberia ler. Que a mulher me expulsa de casa por este ou aquele motivo. Deixo as lendas correrem e crescerem, se distorcerem.
Mas o que eu odeio mesmo é quando chega um mal-conhecido de botequim acompanhado de desconhecidos de botequim, inchados de cachaça, e o conhecido berra para todos ouvirem, orgulhoso de ser meu amigo: Taí! Esse é meu amigo Alcir, jornalista e escritor!. Escritor, eu? Só publiquei um livrinho e, ainda assim, paguei a editora para publicá-lo!!! Fico envergonhado, gostaria de ter o dom da invisibilidade, de entrar embaixo da mesa e desaparecer. Mas suporto com bravura a inconveniência e aperto uma a uma as mãos grudentas de suor velho. Tento ser diplomático, finjo simpatia temperada de visível impaciência, desvio os olhos para as páginas do jornal aberto sobre a mesa como a anunciar certa urgência na leitura. Talvez percebam e saiam, talvez me deixem em paz.
Já requeri um biombo, mas o gerente do bar se limita a um sorriso. Então uso as páginas como aparelho seletor de presenças aceitáveis. Se inconveniente, ponho o dedo em algum ponto de uma coluna impressa enquanto cumprimento o recém-chegado. Se ele pergunta o porquê, digo que é pra não perder o ponto, que foi ali que interrompi a leitura com sua chegada. Isso já me criou situações embaraçosas, senão perigosas. – Tá me tirando?, disse um quase-amigo com cara de nenhum amigo, sorriso já recolhido. – Não, nada disso, imagine? É que a notícia é relevante demais para mim... Quase apanhei. Por garantia, passei a examinar o tamanho do sujeito antes de lançar mão do expediente.
Sou cliente VIP (Very Important Pingaiada). Há quem diga que faço parte do cenário. Que, se não estou, a clientela fica olhando em volta, tentando descobrir o que mudou, se há novidades, um vaso, uma nova iluminação. Mas não gosto da brincadeira do garçom, que vem espanando as mesas e, de passagem, me espana também, alegando engano em seguida. Não acho graça. Entretanto, o bar está lá, o jornal à mão, a cerveja gelada, o tempo sobrando disponível... Eu não resisto.
Mas o que eu odeio mesmo é quando chega um mal-conhecido de botequim acompanhado de desconhecidos de botequim, inchados de cachaça, e o conhecido berra para todos ouvirem, orgulhoso de ser meu amigo: Taí! Esse é meu amigo Alcir, jornalista e escritor!. Escritor, eu? Só publiquei um livrinho e, ainda assim, paguei a editora para publicá-lo!!! Fico envergonhado, gostaria de ter o dom da invisibilidade, de entrar embaixo da mesa e desaparecer. Mas suporto com bravura a inconveniência e aperto uma a uma as mãos grudentas de suor velho. Tento ser diplomático, finjo simpatia temperada de visível impaciência, desvio os olhos para as páginas do jornal aberto sobre a mesa como a anunciar certa urgência na leitura. Talvez percebam e saiam, talvez me deixem em paz.
Já requeri um biombo, mas o gerente do bar se limita a um sorriso. Então uso as páginas como aparelho seletor de presenças aceitáveis. Se inconveniente, ponho o dedo em algum ponto de uma coluna impressa enquanto cumprimento o recém-chegado. Se ele pergunta o porquê, digo que é pra não perder o ponto, que foi ali que interrompi a leitura com sua chegada. Isso já me criou situações embaraçosas, senão perigosas. – Tá me tirando?, disse um quase-amigo com cara de nenhum amigo, sorriso já recolhido. – Não, nada disso, imagine? É que a notícia é relevante demais para mim... Quase apanhei. Por garantia, passei a examinar o tamanho do sujeito antes de lançar mão do expediente.
Sou cliente VIP (Very Important Pingaiada). Há quem diga que faço parte do cenário. Que, se não estou, a clientela fica olhando em volta, tentando descobrir o que mudou, se há novidades, um vaso, uma nova iluminação. Mas não gosto da brincadeira do garçom, que vem espanando as mesas e, de passagem, me espana também, alegando engano em seguida. Não acho graça. Entretanto, o bar está lá, o jornal à mão, a cerveja gelada, o tempo sobrando disponível... Eu não resisto.
Mensagem de despedida de férias
Gozei (no bom sentido) merecidas férias em setembro/outubro. Emendei o período com feriados prolongados. Antes de deixar a redação da Assessoria de Imprensa, porém, poucos dias antes da hora do devido gozo (idem), enviei mail de despedida para os colegas, conforme segue:
Queridos/idas,
Não aguento esperar... A partir de quinta (6 de setembro), vocês vão passar prazerosos 39 dias sem ver este meu rosto lindo ou ouvir esta minha voz de timbre musical. Entretanto, eu vos digo: pensarei em vocês aqui da Redação, trabalhando penosamente, enquanto eu me embriago de cerveja e sol. De vocês, levo a poesia, a benemerência escatológica, o espírito profundo de solidariedade e de união. Esses dias escorrerão marcando as minhas já tão sofridas faces, ardendo sobre minhas cicatrizes tantas enquanto eu durmo até tarde, e vou flanando pelaí. Então, sozinho em alguma mesa de bar, eu constatarei com os olhos marejados: putaqueopariu!, eu estou de férias!!!
E, por vocês, eu me inspiro:
O melhor do ócio é que, nessa idade,
Não terei que cumprir horário
Mas vou morrer de saudade
De infernizar o estagiário.
E ficarei por aí, à toa
curtindo o mundo e suas cores
Sem nem pensar que existe
Pauta, demanda, Dolores...
Quem dera esse período
Durasse até o fim do ano
Mas não; já em outubro direi:
Pronto!, lá vem o Luciano!
A todos e todas,
ósculos nas tuberosidades calipígias,
Alcir, o Belo
Glossário
Dolores: Supervisora Técnica de Imprensa da PMSA, nossa chefa
Luciano: Coordenador do Núcleo de Comunicação da PMSA, o Fodão
Tuberosidades calipígias: bunda
Ósculos: ah!, saco, vai procurar no dicionário!
Queridos/idas,
Não aguento esperar... A partir de quinta (6 de setembro), vocês vão passar prazerosos 39 dias sem ver este meu rosto lindo ou ouvir esta minha voz de timbre musical. Entretanto, eu vos digo: pensarei em vocês aqui da Redação, trabalhando penosamente, enquanto eu me embriago de cerveja e sol. De vocês, levo a poesia, a benemerência escatológica, o espírito profundo de solidariedade e de união. Esses dias escorrerão marcando as minhas já tão sofridas faces, ardendo sobre minhas cicatrizes tantas enquanto eu durmo até tarde, e vou flanando pelaí. Então, sozinho em alguma mesa de bar, eu constatarei com os olhos marejados: putaqueopariu!, eu estou de férias!!!
E, por vocês, eu me inspiro:
O melhor do ócio é que, nessa idade,
Não terei que cumprir horário
Mas vou morrer de saudade
De infernizar o estagiário.
E ficarei por aí, à toa
curtindo o mundo e suas cores
Sem nem pensar que existe
Pauta, demanda, Dolores...
Quem dera esse período
Durasse até o fim do ano
Mas não; já em outubro direi:
Pronto!, lá vem o Luciano!
A todos e todas,
ósculos nas tuberosidades calipígias,
Alcir, o Belo
Glossário
Dolores: Supervisora Técnica de Imprensa da PMSA, nossa chefa
Luciano: Coordenador do Núcleo de Comunicação da PMSA, o Fodão
Tuberosidades calipígias: bunda
Ósculos: ah!, saco, vai procurar no dicionário!
segunda-feira, outubro 16, 2006
Experiências
Quando a gente vai ficando velho... quero dizer, quando o sujeito acumula aniversários, ou tempo de estrada, fatalmente terá uma coleção de fatos, testemunhos, cenas vistas e experiências vividas que os jovens nem imaginam.
Quando eu trabalhei na polícia ferroviária (nos anos 70), vivi coisas inusitadas e até assustadoras. Em seis anos na RFFSA, atendi 17 atropelamentos... e atropelamento por trem não é coisa bonita de se ver. Os velhos ferroviários contavam histórias como: "O trem tira os sapatos do atropelado, sempre!". Quando ouvi, não acreditei. Mas, depois de atender tantas mortes, confirmei a lenda.
E também matei cachorros atropelados e condenados a morrer lentamente. Tinha que sacrificá-los. Não tinha coragem de virar as costas e deixar o animal agonizando por horas. Um dia, um funcionário da estação de Francisco Morato me levou até sua casa porque acreditava que seu cachorro, que sempre fora manso e estava muito agressivo agora, pegara raiva, e ele tinha filhos pequenos. Queria sacrificar o animal para preservar as crianças. Fui.
Na casa, todos se recolheram depois de me apontar onde o animal estava preso. As crianças estavam aos prantos, pois adoravam o cachorro. O cão estava na corrente em uma casinha baixa, de blocos, coberta com um pedaço de telha Brasilit. Rosnou com a minha aproximação. Ergui a telha devagar, com o revólver na mão. O cão me viu, ficou parado ante o cano da arma, olhos fixos em mim, rosnando. Olhei para ele por uns instantes... e guardei a arma.
O dono saiu, surpreso com minha atitude.
- Você não vai sacrificá-lo?
- Não, respondi. Não entendo de animais mas não acredito que ele esteja com a raiva. Deve estar nervoso com alguma coisa. Vamos esperar mais uns dias...
Pois não é que, dias depois, o homem veio me agradecer emocionado. O cachorro voltara ao normal e brincava com as crianças. Não estava doente, e os filhos estavam felizes. E eu fiquei feliz também. Valeu a sacada!
Quando eu trabalhei na polícia ferroviária (nos anos 70), vivi coisas inusitadas e até assustadoras. Em seis anos na RFFSA, atendi 17 atropelamentos... e atropelamento por trem não é coisa bonita de se ver. Os velhos ferroviários contavam histórias como: "O trem tira os sapatos do atropelado, sempre!". Quando ouvi, não acreditei. Mas, depois de atender tantas mortes, confirmei a lenda.
E também matei cachorros atropelados e condenados a morrer lentamente. Tinha que sacrificá-los. Não tinha coragem de virar as costas e deixar o animal agonizando por horas. Um dia, um funcionário da estação de Francisco Morato me levou até sua casa porque acreditava que seu cachorro, que sempre fora manso e estava muito agressivo agora, pegara raiva, e ele tinha filhos pequenos. Queria sacrificar o animal para preservar as crianças. Fui.
Na casa, todos se recolheram depois de me apontar onde o animal estava preso. As crianças estavam aos prantos, pois adoravam o cachorro. O cão estava na corrente em uma casinha baixa, de blocos, coberta com um pedaço de telha Brasilit. Rosnou com a minha aproximação. Ergui a telha devagar, com o revólver na mão. O cão me viu, ficou parado ante o cano da arma, olhos fixos em mim, rosnando. Olhei para ele por uns instantes... e guardei a arma.
O dono saiu, surpreso com minha atitude.
- Você não vai sacrificá-lo?
- Não, respondi. Não entendo de animais mas não acredito que ele esteja com a raiva. Deve estar nervoso com alguma coisa. Vamos esperar mais uns dias...
Pois não é que, dias depois, o homem veio me agradecer emocionado. O cachorro voltara ao normal e brincava com as crianças. Não estava doente, e os filhos estavam felizes. E eu fiquei feliz também. Valeu a sacada!
terça-feira, agosto 22, 2006
Reflexões
Puxa, faz um tempo que eu não posto nada no meu blog... Ô preguiça! Talvez eu estivesse vagando pelo limbo, alheio aos domínios de Gaia, à humanidade e à triste condição humana. Prefiro alimentar meu hiilismo a chorar as mortes sob mísseis israelentes no Líbano, ou sob bombas americanas no Iraque. Prefiro amar meus filhos e dedicar-me a um projeto novo, incipiente ainda, que poderá ajudar-me a pagar uma pequena parcela das minhas dívidas.
Mas permanecerei alheio aos convites que a ACA me envia com frequência. ACA, para quem não sabe, significa Associação dos Credores do Alcir. Pois é, até sede própria a ACA já tem, e insiste em convidar-me para seus churrascos mensais, bingos, festas juninas e outras atividades às quais não compareço. Já mandei a eles o meu recado: Não estou nessa pindura porque quero. Penso sempre em vocês, e informo que, em todos os dias de pagamento, penso mais ainda em vocês. Como a grana é curta, ponho seus nomes em papéizinhos, dobro-os e ponho no meu chapéu. Sorteio uns dois ou três e efetuo o pagamento. Se vocês insistirem com seus convites sarcásticos, não ponho mais seus nomes no meu chapéu e ponto final!
Sabe que eles sossegaram um pouco?
Mas permanecerei alheio aos convites que a ACA me envia com frequência. ACA, para quem não sabe, significa Associação dos Credores do Alcir. Pois é, até sede própria a ACA já tem, e insiste em convidar-me para seus churrascos mensais, bingos, festas juninas e outras atividades às quais não compareço. Já mandei a eles o meu recado: Não estou nessa pindura porque quero. Penso sempre em vocês, e informo que, em todos os dias de pagamento, penso mais ainda em vocês. Como a grana é curta, ponho seus nomes em papéizinhos, dobro-os e ponho no meu chapéu. Sorteio uns dois ou três e efetuo o pagamento. Se vocês insistirem com seus convites sarcásticos, não ponho mais seus nomes no meu chapéu e ponto final!
Sabe que eles sossegaram um pouco?
terça-feira, junho 13, 2006
Trechos do meu livro ainda não publicado
Em 1995 publiquei meu primeiro livro, Treze Infernos, textos poéticos, contos e crônicas livro. A seguir, a sinopse do segundo livro, Seara Encantada, que estou fazendo a revisão final para, depois, tentar o apoio de alguma editora. Vai ser difícil...
SINOPSE
Seara Encantada
Enquanto as ações do homem sobre o Planeta Terra provocam alterações climáticas cada vez mais extremas, um simples pai de família desaparece de casa deixando esposa e filhos. Por trás desse mistério está o dedo sobrenatural de Gaia, o Espírito da Terra.
Sem memória, o homem vaga por cidades do interior até deparar com seu destino em um lugarejo minúsculo. Ali encontrará, além do desfile de personagens tragicômicos, um xamã poderoso e anacrônico encarregado de treiná-lo nas artes xamânicas.
Um espaço mágico e repleto de espíritos elementares da Natureza faz o pano de fundo para a história. Essas criaturas diáfanas são parte do projeto natural de recuperação do planeta, para o qual muitos outros foram convocados.
O aprendizado do discípulo, entretanto, não será tranqüilo pois há os do “outro lado”. Uma ficção envolvente e divertida, e um alerta em defesa da sobrevivência do planeta.
Trechos:
"O Primeiro
Em dezembro
de 1995, publiquei meu primeiro livro, intitulado "Treze Infernos, Textos Poéticos, Contos e Crônicas". Fiz apenas 500 exemplares (esgotados, mas não necessariamente vendidos, veja bem!), pela João Scortecci Editora, aquela que publica qualquer livro, preste ou não, desde que se pague a quantia devida... Com 80 páginas, aquela foi minha primeira aventura literária e reune textos que eu vinha escrevendo ao longo dos tempos, desde a Revolução Francesa, pelo que me lembre...
Eis a capa do de cujus... com fotografia da minha lavra feita no Parque Estadual do Juquery, local onde persiste vegetação de cerrado, uma raridade em São Paulo. Vale a pena conhecer... o parque.
SINOPSE
Seara Encantada
Enquanto as ações do homem sobre o Planeta Terra provocam alterações climáticas cada vez mais extremas, um simples pai de família desaparece de casa deixando esposa e filhos. Por trás desse mistério está o dedo sobrenatural de Gaia, o Espírito da Terra.
Sem memória, o homem vaga por cidades do interior até deparar com seu destino em um lugarejo minúsculo. Ali encontrará, além do desfile de personagens tragicômicos, um xamã poderoso e anacrônico encarregado de treiná-lo nas artes xamânicas.
Um espaço mágico e repleto de espíritos elementares da Natureza faz o pano de fundo para a história. Essas criaturas diáfanas são parte do projeto natural de recuperação do planeta, para o qual muitos outros foram convocados.
O aprendizado do discípulo, entretanto, não será tranqüilo pois há os do “outro lado”. Uma ficção envolvente e divertida, e um alerta em defesa da sobrevivência do planeta.
Trechos:
"O Primeiro
Em dezembro
de 1995, publiquei meu primeiro livro, intitulado "Treze Infernos, Textos Poéticos, Contos e Crônicas". Fiz apenas 500 exemplares (esgotados, mas não necessariamente vendidos, veja bem!), pela João Scortecci Editora, aquela que publica qualquer livro, preste ou não, desde que se pague a quantia devida... Com 80 páginas, aquela foi minha primeira aventura literária e reune textos que eu vinha escrevendo ao longo dos tempos, desde a Revolução Francesa, pelo que me lembre...Eis a capa do de cujus... com fotografia da minha lavra feita no Parque Estadual do Juquery, local onde persiste vegetação de cerrado, uma raridade em São Paulo. Vale a pena conhecer... o parque.
terça-feira, maio 30, 2006
Crônicas suburbanas
Suburbano
A camada de pó cobre lentamente os meus pensamentos poucos, exercendo sobre mim essa catarse estranha. Caminho entre o lixo das ruas, desvio-me de buracos e poças, trafego sereno entre cães vadios, entre bêbados e mendigos nesse subúrbio das almas. A poeira fina vai cobrindo tudo, como num sinal dos tempos.
As ruas serpenteiam malígnas entre os casebres toscos. Crianças encardidas sorriem. A menina bonita traqueja nos calcanhares empoeirados, entre olhares e assovios dos marreteiros em calção e havaiana. Seus pés sujos me contam histórias.
A poeira vai se insinuando pelas frestas e vãos, acumulando-se. Tudo assume uma só e triste cor. A poeira me contamina, me desanima, me confina nessa desesperança, nessa desconfiança de que a coisa descambou, de que tudo vai mal. Esta cidade precisa urgentemente de um tratamento de choque pela poesia, de pontos brilhantes nas esquinas, asfaltos azulados, calçadas quadriculadas.
Esta cidade precisa de estímulos, de ícones, de dissonantes jazzísticas. Precisa ela é de domingos ensolarados, de uma liberada e colorida juventude que dance, colha flores, namore. Para despertar esta cidade não é preciso muito. Talvez uns sacolejos aqui e ali, quem sabe um banho de música, um forró danado de bom, uma grande chuva, daquelas de verão, quando o sol fica para brincar com as gotas grossas. Esta cidade precisa mesmo é de umas vassouradas vigorosas.
Francamente, Franco da Roça!
Franco da Roça, 62 anos de existência, quase cem bairros, população estimada em mais de cento e trinta mil almas famintas de comida, bebida, diversão e arte... Cidade nascida do amor da antiga Juquery e a velha e pernóstica inglesinha São Paulo Railway, por cujos trilhos trafegaram tantos sonhos e encoxadas - isso sem falar das árvores onde os bandeirantes fizeram xixi - fica aí, sorumbática e pasma, no meio dos morros, esperando o futuro, "esperando a sorte ou talvez o dia de voltar pro norte".
Franco da Roça, nem capital nem interior, mas periferia econômica e cultural - esse escuro cordão de brasileiros que, em busca de uma sobrevivência, se não digna, ao menos possível, amontoam-se em torno das grandes cidades, bem longe de sua terra natal. Se nas décadas de sessenta e setenta era celeiro de artistas, hoje está desfigurada, deteriorada, violentada em seu tédio modorrento mas, ainda assim amada por seus filhos.
Cercada de Mairiporãs, de Caieiras, de Moratos e Cajamares por todos os lados, nossa juquerina aldeia sobrevive aos trancos, arranhando aqui e ali umas lascas de cultura, de bons sons, de artes plásticas e artes plastificadas, de esportes radicais e/ou jovens radicalizados, inseguros no desespero da falta de perspectivas, de opção e de grana, no meio de uma puberdade confusa, na rebeldia sem causa e sem alvo definido, expressa no vandalismo predatório.
"Enquanto os homens exercem seus podres poderes" a cidade fica aí, estagnando a céu aberto, andando para trás e sonhando suas esperanças de um dia poder invadir o primeiro mundo por terra, mar e bar. E como a esperança é a única que morre, haveremos de sonhar, todos, até que a burrice nos torne mais provincianos... e iguais.
A camada de pó cobre lentamente os meus pensamentos poucos, exercendo sobre mim essa catarse estranha. Caminho entre o lixo das ruas, desvio-me de buracos e poças, trafego sereno entre cães vadios, entre bêbados e mendigos nesse subúrbio das almas. A poeira fina vai cobrindo tudo, como num sinal dos tempos.
As ruas serpenteiam malígnas entre os casebres toscos. Crianças encardidas sorriem. A menina bonita traqueja nos calcanhares empoeirados, entre olhares e assovios dos marreteiros em calção e havaiana. Seus pés sujos me contam histórias.
A poeira vai se insinuando pelas frestas e vãos, acumulando-se. Tudo assume uma só e triste cor. A poeira me contamina, me desanima, me confina nessa desesperança, nessa desconfiança de que a coisa descambou, de que tudo vai mal. Esta cidade precisa urgentemente de um tratamento de choque pela poesia, de pontos brilhantes nas esquinas, asfaltos azulados, calçadas quadriculadas.
Esta cidade precisa de estímulos, de ícones, de dissonantes jazzísticas. Precisa ela é de domingos ensolarados, de uma liberada e colorida juventude que dance, colha flores, namore. Para despertar esta cidade não é preciso muito. Talvez uns sacolejos aqui e ali, quem sabe um banho de música, um forró danado de bom, uma grande chuva, daquelas de verão, quando o sol fica para brincar com as gotas grossas. Esta cidade precisa mesmo é de umas vassouradas vigorosas.
Francamente, Franco da Roça!
Franco da Roça, 62 anos de existência, quase cem bairros, população estimada em mais de cento e trinta mil almas famintas de comida, bebida, diversão e arte... Cidade nascida do amor da antiga Juquery e a velha e pernóstica inglesinha São Paulo Railway, por cujos trilhos trafegaram tantos sonhos e encoxadas - isso sem falar das árvores onde os bandeirantes fizeram xixi - fica aí, sorumbática e pasma, no meio dos morros, esperando o futuro, "esperando a sorte ou talvez o dia de voltar pro norte".
Franco da Roça, nem capital nem interior, mas periferia econômica e cultural - esse escuro cordão de brasileiros que, em busca de uma sobrevivência, se não digna, ao menos possível, amontoam-se em torno das grandes cidades, bem longe de sua terra natal. Se nas décadas de sessenta e setenta era celeiro de artistas, hoje está desfigurada, deteriorada, violentada em seu tédio modorrento mas, ainda assim amada por seus filhos.
Cercada de Mairiporãs, de Caieiras, de Moratos e Cajamares por todos os lados, nossa juquerina aldeia sobrevive aos trancos, arranhando aqui e ali umas lascas de cultura, de bons sons, de artes plásticas e artes plastificadas, de esportes radicais e/ou jovens radicalizados, inseguros no desespero da falta de perspectivas, de opção e de grana, no meio de uma puberdade confusa, na rebeldia sem causa e sem alvo definido, expressa no vandalismo predatório.
"Enquanto os homens exercem seus podres poderes" a cidade fica aí, estagnando a céu aberto, andando para trás e sonhando suas esperanças de um dia poder invadir o primeiro mundo por terra, mar e bar. E como a esperança é a única que morre, haveremos de sonhar, todos, até que a burrice nos torne mais provincianos... e iguais.
sexta-feira, maio 05, 2006
As Aves
(Texto publicado em 1995, no meu livro "Treze Infernos - Textos Poéticos, Contos e Crônicas".)
(Origem: Li, em 1995, notícia sobre fotógrafo americano que ganhara o prêmio Pullitzer com foto de criança africana agonizando e corvo esperando nas proximidades. Meses depois, o fotógrafo é encontrado morto dentro do carro em sua garagem fechada e motor ligado. Suicídio?... Aí eu escrevi...).
A imagem ainda está, cruel, terrível ante meus olhos: o menino africano agoniza; numa pedra, o corvo espera. A imagem está gravada, indelével em meu coração. A cena dói em mim e doerá por muitos anos, infinitamente, nos olhos de cada menino, no andar cansado de cada velho, no rosto sofrido de cada um, essa cena doerá em mim, pungente, impiedosa. Daí minha impotência, minhas mãos vazias, meu ódio incontido por todas as injustiças, por toda sorte de corrupção, de impunidade, de oportunismo, de sarcasmo, de hipocrisia.
Magérrimo, sem forças, o menino fica deitado na sua dor infantil. A fome já não lhe dói, na dormência da morte que vai, inexorável, invadindo seu corpo pequeno. No torpor da agonia ele já não se recorda do prazer da comida ou talvez, no delírio, sonhe: um prato de arroz, doces, balas, um chocolate. A ave negra espera, apenas.
Conheço essas aves, há muitas em minha cidade. Voam atrás do poder fácil, do dinheiro fácil, do emprego fácil, do abuso fácil, Quando não podem ser, bajulam ou imitam quem é. Quando não podem ter, orbitam em torno de quem tem, as aves. Daí a minha revolta, os meus textos amargos, o meu poema agressivo. Daí o meu desinteresse nas glórias mesquinhas, nas quinquilharias, nas posses e poses, nas falsas pompas, nos elogios gratuitos.
Escrevo porque melhor não sei fazer. Mesmo que ninguém leia ou creia, eu escreverei insistindo: eu percebo gente à venda infestando a cidade como percevejos... A dor dói, sim, em mim, estupenda e avassaladora. Por isso eu quero as coisas simples e pequenas apenas. E comida e educação, e saúde e proteção, e carinho e respeito para aquele e todos os outros meninos, menino que eu fui, meus filhos...
(Origem: Li, em 1995, notícia sobre fotógrafo americano que ganhara o prêmio Pullitzer com foto de criança africana agonizando e corvo esperando nas proximidades. Meses depois, o fotógrafo é encontrado morto dentro do carro em sua garagem fechada e motor ligado. Suicídio?... Aí eu escrevi...).
A imagem ainda está, cruel, terrível ante meus olhos: o menino africano agoniza; numa pedra, o corvo espera. A imagem está gravada, indelével em meu coração. A cena dói em mim e doerá por muitos anos, infinitamente, nos olhos de cada menino, no andar cansado de cada velho, no rosto sofrido de cada um, essa cena doerá em mim, pungente, impiedosa. Daí minha impotência, minhas mãos vazias, meu ódio incontido por todas as injustiças, por toda sorte de corrupção, de impunidade, de oportunismo, de sarcasmo, de hipocrisia.
Magérrimo, sem forças, o menino fica deitado na sua dor infantil. A fome já não lhe dói, na dormência da morte que vai, inexorável, invadindo seu corpo pequeno. No torpor da agonia ele já não se recorda do prazer da comida ou talvez, no delírio, sonhe: um prato de arroz, doces, balas, um chocolate. A ave negra espera, apenas.
Conheço essas aves, há muitas em minha cidade. Voam atrás do poder fácil, do dinheiro fácil, do emprego fácil, do abuso fácil, Quando não podem ser, bajulam ou imitam quem é. Quando não podem ter, orbitam em torno de quem tem, as aves. Daí a minha revolta, os meus textos amargos, o meu poema agressivo. Daí o meu desinteresse nas glórias mesquinhas, nas quinquilharias, nas posses e poses, nas falsas pompas, nos elogios gratuitos.
Escrevo porque melhor não sei fazer. Mesmo que ninguém leia ou creia, eu escreverei insistindo: eu percebo gente à venda infestando a cidade como percevejos... A dor dói, sim, em mim, estupenda e avassaladora. Por isso eu quero as coisas simples e pequenas apenas. E comida e educação, e saúde e proteção, e carinho e respeito para aquele e todos os outros meninos, menino que eu fui, meus filhos...
A meu pai
(Texto publicado em 1995, no meu livro "Treze Infernos - Textos Poéticos, Contos e Crônicas".)
Na manhã de quarta-feira, 22 de fevereiro de 1995, faleceu meu pai. Idoso, cansado, calado, partiu sem quase nada me dizer. A dimensão da sua ausência foi-se avolumando, lenta e cruel, tomando forma e submetendo-me a uma solidão estranha, cheia de pontos obscuros e pausas não esclarecidas. Foi-se o nordestino piadista, incansável contador de casos e conhecedor de coisas que livro algum jamais me ensinará. Sentei-me num canto e olhei para minhas mãos inúteis.
O dia estava claro quando ele partiu. Até a notícia demorou a chegar, tamanho o silêncio com que ele se cercara nos últimos tempos, ciente da urgência da partida e disposto a botar os pés feridos na sua última estrada. Não reclamou. Não acusou ninguém e, por si mesmo, não derramou, nunca, uma lágrima sequer
Partiu como quem pede desculpas pelo mau jeito, pela piada infeliz, pelo estorvo causado e por não ter podido dar mais do que deu aos que amou. Levou consigo as mãos calejadas em cobrir as crias, em dar-lhes morada e sustento. Aos pequenos, aos menores, reservou, em seu peito, um cantinho especial. Amou-os, assim, com seu jeito terno. E fomos , todos nós, os menores, um dia, e tivemos, portanto, um lugar especial naquele velho coração.
Deixou-nos coisas valiosas, imateriais, sagradas, como essa certeza diante da vida, uma posição sólida ante as injustiças, um silêncio sereno ante a dificuldade. Riqueza não deixou porque não as teve mas transmitiu aos que o conheceram uma doçura prática para superar qualquer obstáculo: sua alegria determinada.
Uma orfã perspectiva abre-se para mim nesse desamparo, um mundo novo onde me sinto estranhamente só, um horizonte onde impera esse nó no peito, esses caminhos todos em que terei que caminhar, carregando as lembranças, pois os seus ossos não poderei levar.
Foi-se meu pai ao encontro de minha mãe e ficamos nós, pasmos diante da crueza do destino, meninos ainda, dentro de nossas grandes cuecas, a lamber nossas próprias crias como se fôssemos eternos.
Na manhã de quarta-feira, 22 de fevereiro de 1995, faleceu meu pai. Idoso, cansado, calado, partiu sem quase nada me dizer. A dimensão da sua ausência foi-se avolumando, lenta e cruel, tomando forma e submetendo-me a uma solidão estranha, cheia de pontos obscuros e pausas não esclarecidas. Foi-se o nordestino piadista, incansável contador de casos e conhecedor de coisas que livro algum jamais me ensinará. Sentei-me num canto e olhei para minhas mãos inúteis.
O dia estava claro quando ele partiu. Até a notícia demorou a chegar, tamanho o silêncio com que ele se cercara nos últimos tempos, ciente da urgência da partida e disposto a botar os pés feridos na sua última estrada. Não reclamou. Não acusou ninguém e, por si mesmo, não derramou, nunca, uma lágrima sequer
Partiu como quem pede desculpas pelo mau jeito, pela piada infeliz, pelo estorvo causado e por não ter podido dar mais do que deu aos que amou. Levou consigo as mãos calejadas em cobrir as crias, em dar-lhes morada e sustento. Aos pequenos, aos menores, reservou, em seu peito, um cantinho especial. Amou-os, assim, com seu jeito terno. E fomos , todos nós, os menores, um dia, e tivemos, portanto, um lugar especial naquele velho coração.
Deixou-nos coisas valiosas, imateriais, sagradas, como essa certeza diante da vida, uma posição sólida ante as injustiças, um silêncio sereno ante a dificuldade. Riqueza não deixou porque não as teve mas transmitiu aos que o conheceram uma doçura prática para superar qualquer obstáculo: sua alegria determinada.
Uma orfã perspectiva abre-se para mim nesse desamparo, um mundo novo onde me sinto estranhamente só, um horizonte onde impera esse nó no peito, esses caminhos todos em que terei que caminhar, carregando as lembranças, pois os seus ossos não poderei levar.
Foi-se meu pai ao encontro de minha mãe e ficamos nós, pasmos diante da crueza do destino, meninos ainda, dentro de nossas grandes cuecas, a lamber nossas próprias crias como se fôssemos eternos.
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