sábado, setembro 05, 2015

Sem consenso



Sem consenso
Alcir Rodrigues de Oliveira
 
O papel está em branco,
Por isso serei franco.
Batuco essas mal traçadas
Só pra ver a guerra deflagrada.

Queimaram o negro,
Queimaram o índio.
Queimaram...
Indigente, índio também é gente

E delegado também é gado.
Que te mande para a masmorra,
Mas, favor, não morra.

Sou jornalista,
Sei que estou na lista
Por ser também petista.

Se falam que vivo no gargalo
Eu, oras, me calo.
Estou cansado que me pisem no calo.

E vou, indiferente,
Passando rente a essa gente.
Gente coxinha, gente mesquinha
Gente sem livros, Deus me livre.

Eu penso, ando e penso,
Não procuro o consenso
Talvez, sim, o bom senso.

Deixei de ser bobo
Quando parei de ver a Globo.
Não ligo para o que ela diz
Porque amo de verdade o meu País.
Que vai se transformar,
Um dia vai...

Hai quem? Hai kai!



Hai quem? Hai kai!
 Alcir Rodrigues de Oliveira

Hai de ti, que cai
Tem muita gente rindo
Só porque tu és lindo.

Lindo pero no mucho
Lindo porque amigo
Lindo em desabrigo.

Não és como eu,
com nome tão singelo
Eu sou Alcir, o Belo!
(essa doeu!)

Carrego o pó das estradas
E muitos sonhos na fronte
Pasmo ante o horizonte.

Eis minhas mãos vazias
Eis minha face enrugada
Eis minh’alma tranquilizada.

Nada justifica minha cicatriz
Pois a culpa é do montão
De aniversários que fiz.

Logo partirei, mas meu rio ficará
Com suas águas, minhas mágoas
E meu jeitão de mandruvá.

Passarinho, voei para o céu
Comi quirera, arrotei amora
No fim, morri de catapora.

Deus me livre por essas rimas
Que vão de mal a pior, de ruim em ruim
Perdão, mas eu nasci assim.

Eu poderia



Eu poderia
          Alcir Oliveira

Limpem essa mesa. Por favor, limpem.
Tirem os pratos, os copos, tudo.
Tirem também a toalha. A toalha...
Assim, deixem-na limpa, vazia.

Quero colocar sobre ela uma coisa,
uma coisa simples para vocês:
uma pergunta.
Sim, uma pergunta, poucas palavras,
uma interrogação no final.
Só isso.
Essa pergunta carrega todo o meu cansaço,
as coisas que eu vi, minhas dores,
Meus sonhos...

Essa pergunta, Ah!, ela não quer respostas
Uma pergunta que se basta por si mesma.
Por dedução, por indução, por qualquer caminho
sem respostas, muitas respostas.
Vazias, todas. Idiotas.

As respostas são arrogantes, sempre são.
Ela está aí, sobre a mesa, a pergunta.
Cale-se. Não diga nada, não quero...
Não, eu não quero ouvir sua voz.

Sua curiosidade é ridícula, simplesmente.
Talvez eu esteja rindo, eu poderia sim.
Mas minha pergunta não me permite.
Seria uma afronta, um pecado mortal
eu rir nesse momento.

Ela está ali... Foi colocada.
Todos se entreolham, pasmos, desconfiados.
Eu poderia rir... Eu poderia ir...

quarta-feira, abril 29, 2015

Haicaizinhos (quando meu Hai não Cai)



Acupunturista tem um projeto
Na porta do consultório, a placa
“Entra que eu te espeto”.

Não digo que é tortura
Mas acredito que o vodu
É tentativa de tele acupuntura?

Boca nervosa é assim
Fala com alvoroço
Língua não tem osso

Analfabeto político
Analfabeto o político
Quem votou nele?

Que desastre a política
Uma rua sem saída
Onde a única saída é a política.

Tem religião que não presta
Veja o que disse a “bispa”
- “Senhor, dá um tiro de benção
Na minha testa”.

Quando eu for embora
Me esqueçam, não importa
Chega dessa vida torta.

E quando eu partir
Guarde um poema meu
Como souvenir.

A Humanidade cambaleia
Ferida, vai por ruas
Que crê serem suas.

Alquimia, me ajude
A preparar uma ressaca
Pra tirar essa inhaca.

Tô véio, tô véio
Tô feio, tô feio,
pinto mucho, saco cheio.

Vai a boiada inquieta
como cirurgião pateta
amputando a perna errada.

Bovina mansidão
Pasmo ante a tela da Globo
pensa que pensa, o bobo.

Aquele é o gostosão
Sem mulher, tranca-se no banheiro
e faz justiça com as próprias mãos

Pastel de nhanha?
Isso não existe
Por que insistes?

Espero a hora
O ponteiro pensa
A hora não espera
Ela passa.

Comprar pão é gozado
Tarefa de todo dia
Pra eu ser desprezado

Poetar é idiotice
Todos gostam
Ninguém lê
Ninguém liga

Desafaste-se eu disse
E, teimosa, me abraças
Tu és tão sem graça...

Fica velho quem quer
dizem que a melhor idade
É coisa boa e coisa e tal
Digam isso pro meu bilau

Adora teu saldo bancário
Burguesinho salafrário
Tua cobiça tem nome
Crianças morrem de fome

Desisto porque preciso
Deixar de ser caçador
De viúva de marido vivo



Sociedade com mau caráter oculto
Cria filhos em cativeiro
Sem ver crianças sob viadultos.